
Em Sergipe, cada autorização de doação de órgãos é uma corrida contra o tempo, envolvendo protocolos médicos, transporte aéreo e acolhimento familiar. Nesta sexta-feira, o caso do advogado Ruan Feitosa, que autorizou a doação dos órgãos do pai após morte encefálica, ilustra a complexidade e a relevância do processo. O paciente, de 47 anos, internado no Hospital de Urgências Governador João Alves Filho (Huse), havia sofrido um AVC e não resistiu às complicações do traumatismo intracraniano.
Durante a internação, a família recebeu apoio da equipe da Organização de Procura de Órgãos de Sergipe (OPO/SE), que explicou a importância da doação e acolheu os familiares. Apesar da resistência inicial de alguns membros, Ruan tomou a decisão de autorizar a doação. “Hoje, sinto que cumprimos um papel importante, ajudando pessoas que precisam. Meu pai ajudou o próximo, mesmo após sua partida”, afirmou.
A coordenadora da OPO/SE, Darcyana Costa, destaca que o acolhimento familiar é fundamental para o processo. “É um momento delicado, mas a compreensão de que a doação transforma dor em esperança é essencial para a autorização acontecer”, explica.
Após a autorização, a logística se torna decisiva. No centro cirúrgico, cirurgiões, anestesistas, instrumentadores e enfermeiros realizam a captação dos órgãos. No caso relatado, foram retirados coração, fígado, dois rins e duas córneas, beneficiando pacientes em diferentes estados. Ambulâncias do Samu, escoltadas pelo Grupamento Especial Tático de Motos (Getam), transportaram os órgãos até o Aeroporto Internacional de Aracaju, de onde aeronaves da Força Aérea Brasileira seguiram para Pernambuco, Distrito Federal e Rio Grande do Norte. As córneas permaneceram em Sergipe.
Segundo Benito Fernandez, coordenador da Central Estadual de Transplantes, o tempo de isquemia fria, período em que o órgão fica sem sangue, varia conforme o órgão e impacta diretamente na qualidade do transplante. “Coração e pulmão, quatro horas; fígado, 12 horas; rins, 36 horas; córnea, até 14 dias. Cada etapa é planejada para que o receptor esteja pronto e o transplante seja bem-sucedido”, detalha.
O balanço da Central mostra que em 2024 Sergipe registrou 57 doadores, com 56 rins, 22 fígados e quatro corações captados. Até setembro de 2025, já foram contabilizados 39 doadores, 41 rins, 19 fígados e quatro corações, além de 174 transplantes de córnea e um transplante renal de doador vivo.
A experiência de doação também emocionou Jorge Luiz, engenheiro civil que autorizou a captação dos órgãos da mãe, vítima de aneurisma cerebral. “Enxergamos a decisão com serenidade e orgulho. Fortalecemos uma corrente de solidariedade que salva vidas. Incentivamos outras famílias a refletirem e compreenderem a real importância da doação”, destacou.
Foto: Ascom SES
