Brasil Por Redação

Dois em cada três moradores de favelas vivem em vias sem árvores, aponta IBGE

Imagem: Fernando Frazão | Agência Brasil

Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que quase dois em cada três habitantes de favelas no Brasil moram em trechos de vias sem nenhuma árvore em área pública. De acordo com dados do suplemento “Favelas e comunidades urbanas: características urbanísticas do entorno dos domicílios”, divulgado nesta sexta-feira, 64,6% dos moradores dessas áreas vivem em ruas sem arborização. Fora das favelas, essa proporção cai para 31%, o que evidencia uma desigualdade territorial significativa.

Os dados foram coletados durante o Censo de 2022 e divulgados no ano em que o Brasil sediou a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), quando temas como preservação ambiental, restauração ecológica e adaptação climática estiveram no centro do debate. Em números absolutos, o IBGE calcula que cerca de 10,4 milhões de pessoas vivendo em favelas residem em vias sem uma única árvore.

Arborização e critérios do levantamento

Para chegar aos resultados, o IBGE considerou apenas árvores com pelo menos 1,70 metro de altura localizadas em vias públicas. Vegetação existente em quintais ou áreas internas não entrou no cálculo. O conceito de via adotado inclui becos, vielas, escadarias, palafitas e outros tipos de acessos comuns em comunidades urbanas.

A comparação entre favelas e áreas não classificadas como tal levou em conta exclusivamente os 656 municípios brasileiros que possuem registro oficial de existência de favelas. Entre eles, Belém, cidade que sediou a COP30, apresentou percentual de 65,2% dos moradores de favelas vivendo em ruas sem árvores, acima da média nacional.

Qualidade de vida e mudanças climáticas

O chefe do Setor de Pesquisas Territoriais do IBGE, Filipe Borsani, destacou que a arborização urbana é um fator diretamente associado à qualidade de vida, especialmente em um cenário de aquecimento global. Segundo ele, a presença de árvores contribui para o conforto térmico, melhora o microclima urbano e torna o ambiente mais saudável.

Durante a COP30, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançou o Plano Nacional de Arborização Urbana, com foco na ampliação da cobertura vegetal nas cidades brasileiras, considerada abaixo dos patamares adequados.

Quantidade de árvores nas favelas

Apesar do cenário majoritário de baixa arborização, 35,4% dos moradores de favelas afirmaram ter alguma árvore próxima de casa, o que corresponde a cerca de 5,7 milhões de pessoas. A distribuição ocorre da seguinte forma:

Uma a duas árvores estão presentes para 17,8% dos moradores; três a quatro árvores para 7,1%; e cinco ou mais árvores para 10,5%. Fora das favelas, a situação é mais favorável: 33,5% dos moradores têm cinco ou mais árvores nas proximidades do domicílio.

O levantamento indica ainda que comunidades menos populosas tendem a ter mais arborização. Em favelas com até 250 habitantes, 45,9% dos moradores viviam em vias com árvores, enquanto em comunidades com mais de 10 mil habitantes esse percentual cai para 31,8%.

Maiores favelas do país

Entre as 20 maiores favelas brasileiras, o cenário varia bastante. Rio das Pedras, no Rio de Janeiro e quinta mais populosa do país, apresenta a pior situação, com apenas 3,5% de seus quase 56 mil moradores vivendo em ruas arborizadas. Em contraste, o Sol Nascente, em Brasília, segunda maior favela do Brasil, registra 70,7% dos moradores com árvores em frente ao domicílio.

Bueiros e infraestrutura urbana

O IBGE também analisou a presença de bueiros, considerados elementos essenciais da infraestrutura urbana para enfrentar eventos extremos de chuva. Nas favelas, 45,4% dos moradores contam com bueiros no trecho da via onde residem. Fora das favelas, o percentual é mais alto, chegando a 61,8%.

Assim como ocorre com a arborização, a presença de bueiros aumenta conforme cresce a população da comunidade. Em favelas com até 250 habitantes, 38% dos moradores tinham bueiros próximos de casa, enquanto nas comunidades com mais de 10 mil habitantes o índice sobe para 54,1%.