
A mobilização global para o desenvolvimento de vacinas contra a covid 19 deixou impactos que vão além do controle da pandemia e consolidou avanços estruturais importantes para a saúde pública brasileira. A avaliação é do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz, o Bio Manguinhos, responsável pela produção da vacina de Oxford AstraZeneca no país. Segundo a diretora do instituto, Rosane Cuber, o processo acelerado de desenvolvimento e transferência de tecnologia foi possível graças ao acúmulo científico já existente e à capacidade instalada do principal laboratório público de vacinas do Brasil.
De acordo com a pesquisadora, as plataformas utilizadas durante a pandemia, como as de vetor viral e de RNA mensageiro, não surgiram de forma improvisada, mas resultaram de décadas de pesquisa. Bio Manguinhos entregou cerca de 190 milhões de doses da vacina ao Programa Nacional de Imunizações e, a partir de fevereiro de 2022, passou a produzir o imunizante com tecnologia totalmente nacional. O desempenho foi fundamental para o enfrentamento da covid no Brasil, com estimativas que apontam a preservação de aproximadamente 300 mil vidas apenas em 2021.
O esforço exigiu a reorganização completa da rotina do instituto, que suspendeu outras atividades para concentrar equipes na adaptação fabril, capacitação técnica e construção de um arcabouço jurídico que viabilizasse a transferência de tecnologia ainda durante o desenvolvimento da vacina. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acompanhou todo o processo, reforçando a segurança e a qualidade do imunizante distribuído à população.
Com o fim da pandemia e a adoção de novas vacinas pelo Ministério da Saúde, a produção do imunizante contra a covid foi encerrada, mas o legado permanece. A estrutura montada e o conhecimento adquirido estão sendo utilizados em novas pesquisas estratégicas para o Sistema Único de Saúde. Entre elas está o desenvolvimento de uma terapia avançada para o tratamento da atrofia muscular espinhal, doença rara cujo custo de tratamento pode chegar a milhões de reais. O projeto utiliza a mesma plataforma de vetor viral da vacina contra a covid e já teve os estudos clínicos autorizados pela Anvisa.
Além disso, Bio Manguinhos iniciou testes em humanos de uma vacina nacional contra a covid baseada em RNA mensageiro, tecnologia que também vem sendo estudada para aplicações oncológicas. Para Rosane Cuber, produzir vacinas e terapias de forma autônoma reduz custos, fortalece a soberania sanitária e garante respostas mais rápidas a emergências de saúde. O reconhecimento internacional reforça esse papel, com o instituto sendo escolhido pela Organização Mundial da Saúde como hub regional de desenvolvimento em mRNA e pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias como centro de produção para a América Latina.
